Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
Noite.

Indecisa sem saber o que lhe esperava, veste os jeans escuros que apertam as suas contornadas pernas e uma camisola cava branca ostentando negras letras grossas aberrantes. Os seus olhos passam a pente fino o seu quarto. Absorvendo cada partícula que pairava no ar na esperança que lhe dessem a força necessária. Espalha pela sua cama o conteúdo que tinha na carteira. Desembrulha um frouxo papel amarelado onde residia as indicações. Vais sair, pergunta uma elegante senhora de tez escura. A sua quietude denuncia-a. Os negros olhos fogem em procura de um lenço floral e uma gabardine bege curta de meia-manga. É apenas um café. Sem estabelecer contacto visual, evitando ver as questões espelhadas nos olhos da sua mãe para as quais pretendia determinantemente evitar, arrasta os sapatos de tacão alto bege até perto da esverdeada cadeira. As sobrancelhas da mais velha juntam-se. Não iria sair daquele quarto sem ter a certeza que lhe respondesse a uma das suas questões. Com intenção de retardar esse indesejável momento, contudo inevitável, a rapariga apressa-se a colocar sobre os seus lábios o gloss cor-de-rosa. Desenha sob a luz fraca uma linha grossa negra nas suas pálpebras. As suas pestanas tornam-se grossas e compridas com apenas uma passagem do rímel. Ouve um suspiro. Não de desaprovação. Mais eu-estou-à-espera. Força um sorriso no espelho. Dá um beijo na bochecha e sussurra uma mentirinha desculpando-se com um "adoro-te" sem antes pegar na grande carteira pele. Cada passo que dava em direcção à porta da casa, melhor ecoava o impacto dos seus tacões sobre o envernizado soalho como se tratando de um martelar constante sobre a sua cabeça. Era a consciência pesada. Faltava-lhe a coragem. Conjurou mentalmente horas antes a conversa que devia ter tido. Tratara do problema objectivamente como se resolvesse uma conta de somar. Decidira que poucas palavras seria o melhor. O seu discurso resumira-se, então, a umas míseras três frases. Contudo, preferiu fugir sem antes deixar uma mentira para trás. Detestava mentiras. Essencialmente, entre as duas. Deficientemente, conjurou umas quantas justificações para as suas atitudes e nenhum a agradou. Todas eram mentiras ( mais uma vez). Excepto a primeira que ditava sumariamente a sua falta de acção, o seu passivismo em relação aquele ambiente de cortar à faca em casa. Criticava-o mas não o resolvia. Como ser masoquista que era, não partilhava com ninguém a dor do seu peito. Um sorriso e um bafo de cigarro sobre as suas traseiras denunciava a presença da sua amiga no local onde o post-it referia. O típico comprimento de três beijos fora trocado. Um som de trejeito saí do lábios da amiga. Tu estás com umas trombas. Se fosse outra, teria feito o habitual riso forçado. Apenas esbocei um frio sorriso. A outra trata de divagar um pouco enquanto termina o cigarro. Mal o esmaga com os gastos ténis, determina um energético passo em direcção a sua casa. A miúda de olhos negros acompanha-a silenciosamente. Ocasionalmente raspavam no ombro uma da outra. Nenhuma palavra dirigiram. Um magro rapaz de estatura média sentado relaxadamente sobre um banco de madeira olhava perversamente para a de olhos negros. Não o conhecia de lado algum. O seu coração bateu aceleradamente. Um ligeiro rubor surgiu nas suas maçãs-do-rosto. A amiga apressou o passo e estreitou a distancia que havia entre elas e o estranho. Puxa pela manga da amiga, sem resultado. De seguida, os braços do rapaz enroscarem à volta da cintura da amiga culminando num intenso beijo de línguas, a boca da outra abre-se. Queria mandar uma piada e perguntar à outra o porque de a ter convidado para fazer de vela. Procurou a sua voz e ela não sai-a. Os olhos do desconhecido avaliavam cada imperfeição do seu rosto. A amiga indiferente ao desconforto que pairava no ar apresenta-os. Pede a de olhos negros para falar sozinha com a amiga. Taciturno, o rapaz dirige-se ao carro. Não me falaste que vinha o teu namorado. A outra contra-argumenta. Ele não é meu namorado. Além disso, que interesse tinha sairmos só as duas. Azedamente responde, antigamente chegava. Cresce e aparece. Já não temos doze anos. Para mais, ele trouxe um amigo. Uma onda de enjoos pelo discurso da amiga fez desequilibrar a de tacões bege. Tentou manter a respiração baixa assim como o tom de voz. Eu não quero conhecer ninguém. Apenas queria passar uma noite animada com a minha melhor amiga. A outra não pareceu-se importar com as palavras. Repetiu a sua posição. Deixando claro que ainda ai agradecer-lhe por aquilo. Por respeito à amizade que as unia, a rapariga mantivesse ao seu lado. O seu companheiro aproximou-se acompanhado do tal amigo que era destinado à dos olhos negros. Tal como ele, avalia-o. Alto, magro, mais velho. Realmente, tudo nele a atraia. Até o piercing na sua sobrancelha. A amiga repara no interesse que tinha sido despertado. Trata de dar uma cotovelada com uma mensagem implícita "eu disse-te que me ias agradecer". Uma voz rouca bate no rosto. Os olhos negros estreitam-se com o hábito que provinha daquela boca. Aquele cheiro, aquele andar, aquele jeito da boca, aqueles olhos profundos, lunáticos até, estavam a começar a causar-lhe mal-estar como que o que estivesse a acontecer fosse errado. Estremece de alto a baixo com a esperança que os pensamentos racionais desvaneçam. Iria se divertir naquela noite.



copodeleite às 21:00
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(33):
De alexis a 28 de Maio de 2011 às 19:53
ohh que querida! Obrigada
beijinho


De alexis a 28 de Maio de 2011 às 19:17
gostei!
beijinho


De a 28 de Maio de 2011 às 19:17
Não é sobre ballet. Quer dizer, mais ou menos. É sobre uma rapariga portuguesa, com um nome holandês, que vai para Nova Iorque, para o instituto de Artes Performativas (P.A.) e enquanto tenta perseguir os seus sonhos, apaixona-se por um rapaz, igualmente talentos, Parker Halle. Ela terá de descobrir se a sua luta valerá realmente a pena. Se tem de facto talento e se é mesmo aquilo que quer fazer da sua vida.


De alexis a 28 de Maio de 2011 às 19:11
obrigada, só tenho pena é que a tenhas lido com erros, não reparei que não os tinha corrigidos!
Beijinho


De a 28 de Maio de 2011 às 12:15
Este é, sem dúvida alguma, um dos melhores textos que já li. Fenomenal. Muitos parabéns.


De Cate J. a 28 de Maio de 2011 às 11:41
ohh está tão lindo *-*

postei life hurts
beijinhos


De prettyydal a 27 de Maio de 2011 às 20:25
*Margarida Rebelo Pinto


De prettyydal a 27 de Maio de 2011 às 20:25
eu para variar sempre que leio textos da Margarida Rebelo de Andrade, choro.


De yellewanne a 26 de Maio de 2011 às 22:25
obrigada princess <3


De Aurelle a 26 de Maio de 2011 às 21:30
Obrigada (:


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