Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
Natal.

Desde pequena, sinto o Natal como uma alegria de o viver que é indescritível. As emoções latejam no meu rosto mal toco com pé na porta do café dos meus avós. Sou invadida pelo cheiro intenso a canela e a bacalhau proveniente da cozinha. Já comecei a fazer..., defende-se o meu avô com medo do meu olhar carregado. Saberia perfeitamente que não caminha para novo e esforços como estes são desnecessários. Como é Natal e discussões seria um mau presságio para noite especial daquele dia, limito-me a pedir um ponto da situação. O bacalhau e a tronchuda já estão na panela com água. Pós sal? Pois disso não me lembro eu..., dando um pouco do seu sorriso, outrora, engatatão. A gargalhada é geral. Aqui provasse que deveria esperar pela minha chegada para cozinhar o maldito bacalhau da Noruega!, diz a minha mãe com a face mais pálida do que a geada formada nas beiras da estrada. Pela primeira vez, os olhos do meu avô deixam os meus e direccionasse para a minha mãe. Estreitam-se e as perguntas saem disparadas da sua boca como flechas. Como já sabia aquele discurso ensaiado no carro cinco minutos atrás apenas para os descansar sem ponta de verdade, fecho-me na cozinha. Trato daquilo que, noutros anos, era trabalho exclusivo da minha mãe e da minha avó. Com o bacalhau com todos quase já pronto e a aletria já nos pratinhos com os seus desenhos de Feliz Natal, desdobro-me em esforço de acender a boca do fogão para aquecer o óleo para fritar as deliciosas rabanadas e os bolinhos de abóbora tão apreciados pela família. Tento uma, tento duas mas o maldito fósforo parte-se sempre! Furiosa pela minha falta de jeito, corro novamente para junto dos meus familiares. Deparo-me com um cenário sinistro. Todos choravam face às noticias cavernosas do estado de saúde da minha mãe. Os factos arrepiam a minha pele, enregela os meus ossos, congela movimentos e pensamentos. Pensaria eu que por ser Natal, a crua realidade magicamente transformaria numa realidade como a dos anteriores anos. A verdade fez-me encolher num canto. Sentia como se me tivessem dado um murro na barriga. Uma súbita tontura seguida de um espasmo trespassa o meu corpo. Com a respiração ofegante, tento agarrar-me ao balcão. A ideia de sair dali e correr para a noite fria era cada vez mais atraente. Com passos oscilantes em que, por vezes, o chão rodava e no tecto formava-se estrelas inexistentes, dirigo-me à saída. A noite estava perfeita. Convidava as pessoas a recolherem-se junto das famílias nas suas cozinhas em volta da lareiras na espera do Pai Natal. Reprimo esse desejo e considero duas vezes o que estava prestes a fazer. Sim ou Não?, era a questão envolta na penumbra. Olho para o cigarro na esperança que fosse cura para os problemas. Sentia-me deprimida, incapaz de manter a máscara de esperança que irradiava na minha família, as forças à muito tinham migrado, apetecia-me desistir e chorar. Por ironia do destino, não havia lágrimas mas um nó na garganta não me deixando comer. Pela luz do candeeiro público, era possível distinguir o filtro castanho e a parte branca laboriosamente enrolada em volta do tabaco. Na parte baixo do invólucro esbranquiçado, tinha escrito Marlboro. Aquele cigarro pela cor, diria que já tinha uns meses mas mantinha o cheiro de novo e pronto para o provar. Quanto mais observa, mais me apercebia da estupidez do meu dilema. Eu queria fumar o raio do cigarro! Estava-me a lixar o quão mal me faria à saúde ou as possíveis repercussões de o fumar teriam no seio da minha família. Apenas queria algo que me acalma-se o espírito. Coloco-o na boca e, com a mão a tremer involuntariamente, acendo o cigarro. Inspiro o fumo e uma onda de calma invade o meu corpo. As boas vindas dão-se em cada célula do meu corpo. O corpo ansiava por aquele gesto. Pedia por mais. Era como se dos ombros saísse um peso só por o inspirar. Rio-me de olhar perdido no céu. Sou uma reles de uma drogada que à primeira adversidade recorre à sua droga!, digo em voz embargada e em soluços. Enojada pela conclusão, esmago o cigarro quase inteiro com os dedos roxos. Estava tão irritava pelo ser que me tinha tornado. As lágrimas de fúria escorrem do ridículo do meu comportamento. Era Natal, dos dias que mais me orgulhava de viver no ano junto da família e, agora a poucas horas do seu auge, fugia dos familiares com medo de os ver na melancolia. Era uma fraca por me esconder os sentimentos, por envergar o sorriso esperançoso e por negar a minha fraqueza. Que era eu de tão especial se não aguentava a realidade? Ao olhar pela janela para a cozinha, um repúdio por aqueles que partilhavam o meu sangue chega-me à boca num sabor amargo. Sem forças, encosto-me à parede fria num choro silencioso. Mais tarde, o meu pai encontrou-me adormecida no banco cá fora gelada até à ponto do cabelo. Sem gritar e numa voz pouco usual em si, pois era carinhosa, Vamos para dentro! Vem tomar um chá quente e arrebita. A tua mãe precisa desse sorriso.



copodeleite às 22:45
link | |

(61):
De Biia ! a 29 de Dezembro de 2011 às 17:37
Eu sou nova e gostava que tu me segui-ses ;)
Obriigada'

Bom 2012


De тιago a 28 de Dezembro de 2011 às 21:43
mas vá, muita força (:


De Jé. a 28 de Dezembro de 2011 às 17:01
Nao esta facil, nada facil :s


De Teresa Isabel Silva a 28 de Dezembro de 2011 às 12:18
Sim, eu também sinto o natal com uma certa magia...
Então como tens andado?

Bjxxx


De Jé. a 28 de Dezembro de 2011 às 01:34
As coisas sao complicadas, e enquanto nao for eu a tomar uma atitude nada vai mudar.


De тιago a 27 de Dezembro de 2011 às 23:30
pois, eu percebo que por momentos isso seja difícil.. e não tinha noção que era tão recente, portanto é normal que ainda não esteja solidificada esta ideia


De тιago a 27 de Dezembro de 2011 às 21:22
eu sei.. mas não nos podemos deixar ir abaixo, isso é importante não para que se crie a ilusão de que está tudo bem, mas para que se gira melhor a situação, que é delicada


De тιago a 27 de Dezembro de 2011 às 21:01
então, ainda bem! e não tens de agradecer (:
e bem, vocês têm de se manter erguidos, pois quando a tua mãe se sentir pior, quer física quer psicologicamente, ela vai precisar apoiar-se em vocês, e se vocês estiverem como ela, fragilizados no momento, poderá ser um momento de total perda de esperança, o que é bom que nunca aconteça


De тιago a 27 de Dezembro de 2011 às 20:40
isso é chato, mas se são uma tentativa para fazer frente á distrofia, há que investir nisso (:
e desde já deixo aqui os meus votos para que a situação não piore e que se possível melhore o máximo possível, do fundo do coração


De тιago a 27 de Dezembro de 2011 às 20:33
isso já é uma parte da sua vida de facto.. mas não há possibilidades de retrair esse avanço da distrofia?


Comentar post

Encontras...

Créditos

Formspring

Perfil

Visitas
Free Web Hit Counter